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Automação moral


  Estamos vivendo mais uma onda de crescimento estagnado, crescem os modelos, as características, a face do objeto produzido, diminui a excelência, aumenta a retórica moral protegendo a estrutura estagnada. É uma espécie de legalidade, a qualidade legal dada às formas reprodutivas. Coisas aceitas, de fácil avaliação por suas características conhecidas.

    Esqueça, não teremos nada que possa ser melhor e mais confortável que um carro V8 com amortecedor e molejo, nem liquidificador com engrenagens e eixo em aço, e o som abafado. Logo mais faremos pouca comida em casa, e logo mais isso e aquilo, com a diferença que o barulho do motor do carro vai desaparecendo e do liquidificador ainda persistirá.

        Talvez a máquina de lavar e o cortador de grama possam ser utilizados nas festinhas dançantes ou para lavar pratos, ou ainda como motor de barco, não sei, essas coisas antigas têm muita utilidade. O jardineiro desaparecerá com a vinda de flores automáticas que lançam perfume, borrifam um gás, uma fumacinha colorida como efeito. Parou de funcionar, pronto, acabou, nada de reciclagem, acabou, fim.

        Construímos rapidamente buracos no céu com desodorante e geladeira, somos produtores de finalidades, objetos tecnicamente perfeitos na aparência. A velocidade aumentou, mais nos movemos para proteger o planeta, e mais ele se desfaz. E mais nos angustiamos com as perdas. O produtivismo progressista e também o liberal estão
em coalização, se equilibram no formalismo, e na velocidade da coisa produzida, o bem, a mercadoria, o treco funcional em um tempo medido em sua durabilidade. Há em tudo o uso do outro, usa-se para uma formação rápida para atender o sem-espírito, imaginário, abstrato, mercado vazio.

        Quanto mais nos esforçamos para que a técnica resolva a nossa disjunção mental de inteligência sensível, que nos toque com emoção, mais as moralidades que nos devoram com seus algoritmos nos põe abaixo do que poderia ser o possível. Tecnicamente perfeitos, e ignorantes, estúpidos e incapazes de atender a chama da metáfora, do salto além, da arte e de sua transcendência.

        Money será eletrônico e sem choque. Apertou o botão, apostou na bolsa de trocas, disse o que queria quando estava no banheiro? No Problem, seus problemas acabaram, a entrega foi realizada com sucesso, abra a porta de casa e veja. Por isso silêncio, para economizar.

        Compre dois leve três, de brinde uma picareta para criptomoeda, moleza, chegou a hora, chegou a sua vez. Se jogar pedra na casa de um que não vai com a cara, pronto, a conta vem pelo correio imediato: o valor é debitado imediatamente da sua conta.

    Por isso paz, nada de fazer mandinga, nada de rolar o mauzão. Ignorantão, tudo bem.

Vai desaparecer a profissão de caminhoneiro, vai ver que teremos algum projeto - provavelmente internacional -, de estradas de ferro, automação de caminhões.

E os ônibus não serão mais montanhas de lata sobre rodas densificadas por pneus feitos com aproximadamente 15% vindo diretamente das mãos do seringueiro em meio à floresta, o extrativismo da borracha participa dessa tecnologia. Talvez demore uns cem anos ou alguns meses para começar.

Mas vai mudar, o jogo vai mudar, mesmo no teatro, não teremos mais a divisão do palco para atores de fundo, de meio, de diálogo com a prima-dona, não veremos tanta chatisse no proscênio, e nem será necessário um autor explicar à produção que a origem histórica, o legado, o problema metafísico e psicológico da personagem não tem um lugar certinho, uma cultura como que uma vida em uma comunidade, as regras sociais.

Arte caipira terá homenagem depois do último premio Nobel de escrita sertaneja feita a Nashville. Romance de choro, de roer unhas, de crime em família, de crueldade com a infancia e juventude, inclusive maltratos a velhos serão avaliados permanentemente de acordo com o menu universal dos bons tratos literários. Catecismo, nem pensar.

Show brega, super-brega e outros de violino desafinados, aquele lenheiro orquestral com eco e cara de amor, e uma infinidade do tipo folk music com eco de salão paroquial serão eletrônicos, os músicos cantores não precisarão imitar. Os refrões seguem pelas ruas de nossa vida: Olha a sexualidade, baratos desejos, olha os prazeres fresquinhos de goiaba, de nata e de creme. Olha o foguete renovado, o micro-computador do tipo condomínio, que só aceita software do mesmo tipo, como o mesmo uniforme, a mesmice delineada, a trampa, a armadilha, o engano corrigido coloridos, perfumados, agora ou nunca.

Tudo será permitido apenas, apenas com fone de ouvido, bebidas lácteas com estrógenos e outros hormônios para dar um ar animal. É que liberdade, é um troço que só é possível do modo rousseauniano, sabe um de cada vez? Liberdade é confundida com segurança do tipo schedule, calendário.

Isso pode agora, amanhã não, andar as três, parar de andar as quatro, multa por andar com cores muito ardidas, proibido beber na sala de reuniões do condomínio mesmo quando haja festa, multinha. Aqui a gente anda-de-carro, ninguém dirige, taxa de uso do solo depois das 18h, e rir em público pode significar tentativa obscena de expressão de desejo animal, a cara deve ser enfezada que nem cara velho de mercedes, ou sei lá.

A camera pega, ajunta e leva a sua conta bancária para o setor de dívida pública. Manifestação civil é terminantemente proibida, ainda mais se alguém se meter a fazer olhar-a-distância, tipo continencia. Correr sem tênis: jamais, nem que a vaca tussa.

Manter distancia do público pobre que não pagam entrada para te ver. Contadores de tempo de conversação para regular rapidez e eficiencia em diálogos. Aliás, toda essa conversa fora significa tentativa de roubo do tempo dos outros. A vida é técnica, nasceu com carta de demissão da vida.

A gente também não verá um arranjo de última hora para um 7 x 0 e vestir a camisa da seleção com orgulho, não vai ter nada disso, não faremos piada de nossas inglórias: talvez seja tudo feito na aposta, em uma bolsa de valores de craques de futebol.

Um algoritmo será implantado para que possa medir o potencial de uma seleção mostrando em escalas, os possíveis acertos e as vantagens com linhas em gráfico de tempo e de atualização.

Gráfico de dispersão para saber quanto tempo cada um fica com a bola e a dinâmica necessária contra certos adversários, Alemanha, Holanda, França, Inglaterra, entre outros cotados para passar por bloqueios e espertezas para chegar à barra do gol, ao momento do chute, e um gráfico de massa, de pizza para conhecer a pontaria, controle, efeitos, e percentagem frente a certos goleiros como Thibault Courtois, Edouard Mendy, Marc-André, Manuel Neuer para realizar o gol. A sorte é que nós temos Ederson Moraes e Alisson Becker para sustentar a jangada.

Mas a Inteligência de Automação pode levar o público, em sua maior parte, para assistir aos jogos da Autonomia onde os jogadores, treinadores, juízes são robóticos. Somente grandes companhias, e talvez associações inteiras de influencers poderão influenciar os resultados.

As certezas são sempre parabólicas, em tudo há uma moralidade proveniente de um algoritmo do tipo escafandro que mergulha no mundo comunitário, numa cultura e pega o que interessa.

A bateria da escola de samba pode ser feita por um DJ eletrônico com equipamento para mexer em todos os instrumentos e criar o que quiser para agradar ao público. Aperta aqui, faz o repique, grita ali, chama a turma, bate tambor, tudo bem programado e com variações. Vendedor ambulante via drone.

Em uma rave, festa grande que enche, a pessoa ganha um cartãozinho que cola junto ao peito. Esse card mostra na hora o batimento cardíaco, pressão, e tudo o mais diretamente ao computador central, daí se sabe onde cada um está, e quem está bem e quem não, as emergências se tornam mais efetivas e se pode salvar vidas rapidamente.

O negócio é função, utilidade, produção, atenção, foco no objetivo, potencial de venda seja do que for, tudo vai funcionar que nem em Pasárgada de Manuel Bandeira, com a diferença de que tudo será cobrado antecipadamente e por tempo de validade curto.

A pessoa nem precisa sair de carro, ela pode ser multada antes, um caso de velocidade, isso porque a ética muda. Silenciosa. Não é necessário pedágio, tudo aquilo. Pisou na estrada tá pagando. O preço dos supermercados também mudam com mais facilidade, atravessadores algoritmados sabem o consumo de cada pessoa da população, podem facilmente aumentar o preço no bairro e nos operatórios vigilados, lugares inteligentes chamados de condomínios fechados.

Assim diminuir o preço no centro onde vive a camada da população que não tem três paradas para a comida, possibilitando o compartilhamento do alimento com mais eficiência.

Alguém quer fazer uma doação de alimento, não precisa ir na casa de ninguém com uma porção, um prato, uma cesta basicamente básica, nada disso, basta apertar um botão que receberá o incentivo de 10% de desconto no imposto de renda, e poderá concorrer ao melhor doador do ano com seu nome, cara e tradicional foto de bom-sujeito entregando restos de comida ou uma caixa ao lado de alguém faminto.

Com a automação a pessoa pode rir de uma piada instalando um algoritmo que avisa a hora de rir, a hora de aplaudir e a hora de ficar quieto sem se mexer porque vem a segunda parte do concerto, e terá possivelmente um detector de ironia, sarcasmo, de cuspe-na-cara. De metáfora será feito em duas partes, um sinal surge imediatamente no aparelho: metaphor - a segunda parte é por análise e compatibilidade de tudo que se produziu a respeito até se chegar a algo próximo. Aí, conforme a suscetibilidade da pessoa pode então: sinta-se emocionado; fique triste, franza a cara; mão no queixo para dar um sinal de entendimento de algo profundo. O detector de metáfora é mais difícil de acontecer, mas vai.

Será mais fácil fazer a reprodução de desenhos e formas acadêmicas através de glissagem de grafite e padronização de material com drones e elevators chão-topo do edifício, demarcações do desenho por tabelas a laser lançadas de qualquer lugar. Pintar uma cidade inteira sem precisar de work-hands. E com um tempo curto, um hacker de doze anos pode tirar do espaço um satélite, mover os portões das comportas do canal do Panamá.

Chega de prédios caindo aos pedaços ou enfeitados com uma pessoa na nossa frente e do nosso lado dizendo o que devemos fazer, nada de escola, universidade, de ensino à distancia e de ensino perto da gente, e de universidade, e de laboratórios e de tudo o mais, aprenderemos reproduzir os algoritmos acompanhando as regras do bairro, do nossos mesquinhos interesses, com restrições a pensamentos estranhos, teremos restrições, criaremos uma sociedade oligomaníaca centrada no self, em si-mesmo, e espalharemos nossa moral, especialmente a legal para sermos cordatos com a ordem. E seremos amorosos com as coisas sabendo que elas não duram muito, cuidaremos de todo tipo de tralha carinhosamente, isso se chamará afetividade.

As construções, devido ao aquecimento global, (um mundo quentinho talvez não dê resfriado) serão subterrâneas, e vamos desestruturar o corpo, os ossos serão substituídos por coisas mais leves e mais duráveis, inclusive o cérebro que será chapado com idéias prontas, não mais repetições, seremos autônomos, a autonomia nos guiará.

Não precisaremos mais de poesia, que ninguém entende mesmo, esse negócio de metáfora, ironia parou no tempo, será exterminada. E ideologia, idéias loucas, idéias competitivas de tirar olho com colherinha, pensamentos raros de alta inteligência não existirá mais, e o capitalismo será exterminado, e no seu lugar a tecnocracia central e mundial.

Como se sabe, tudo que é sólido se desmancha no ar, - inclusive o conceito. Não seremos competidores nem anarquistas umbilicais, seremos a vida em transformação em objetal conhecimentos.

Mas voltando à lagarta, esse negócio de casulo já era, família arrumada para o domingo será cortado, a produção de seres humanos será mais efetiva diretamente do laboratório central de reposição dos mesmos. Chega de dividir pizza, lasanha, churrasquinho final de semana, todo mundo vai ter de pagar para ter um parente, amigo, filho, vizinho, e à vista. Pensa, a criança já vem andando, lava as mãos, conhece a última galaxia reconhecida, a tabela periódica, esse bonito ser super inteligente que fala Yawalapiti, e de repente olha para alguém na sala e diz: mami! ou papi, ou olá subalterno.

Como a produção caiu e vai cair mais, a produtividade via automação vai se estabilizar e não se terá o que fazer. A guerra, a doença, fome ou falta do que comer, e a paz branca, - a morte -, será o substituto da revolução industrial persistente, vamos lutar uns contra os outros de forma tal que as aeronaves desconhecidas, os ovnis que caminham no sul entre estrelas assistirão a preço módico a exterminação da velha maioria.

E nós, da elite, limpos e asseados voltaremos os nossos rostos para a televisão - modo autômato - que repetirá aqueles filmes com paradinha dramática, uma costinha, barrigada, olhar glicêmico, a fala lida, o silêncio da brutalidade e a violência. Fora isso, passando sobre cadáveres, os vencedores do futuro próximo continuarão indiferentes, passarão sobre cadáveres a se beijarem - no lado protestante do rosto, aquele que quase ri - como se fosse na boca. Enfim, Marte, veremos o planeta azul lá de cima no vermelho de gota de nossas esperanças.

Namorar e casar já vem com pré-divórcio. Sentimento de amor pode ser comprado apenas pessoalmente nas casas do ramo. Afeto de mãe e pai, tapinhas de orgulho e reconhecimento serão entregues diretamente ao grupo de interesses e vantagens a que pertence - infelizmente, questão de validade, vai demorar um ou dois dias para entrega.

Algo bom, não escreveremos mais na pedra, na sílica, vamos escrever no vácuo, que é mais rápido, transparente, e poderemos esquecer com mais facilidade.

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Charlie 



   










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