A pós-bondade do outro como inexistente
A pós-bondade não é um apelo à um bem ulterior que se formará sobre a natureza humana. Ferir a alguém que anteriormente se amou, significa que se deu uma pós-bondade e que tudo anteriormente foi anulado como que suspensivo à um ato concebido como bom para o sujeito que o pratica difere em qualidade para quem o recebe. A este, não considerado como um mal ou maligno, como se possa dizer. Não interessa o porquê, o fenômeno pós-bondade é como um ato técnico, algo stricto e validado suportado por uma tecnocracia jurídica e também é uma conformidade à uma realidade fragmentada em que o sujeito autossuficiente e auto-centrado não concebe qualquer validade moral e/ou cultural e inflige sobre qualquer outro que anteponha-se à seu direito restrito sob forma legal.
O processo de tecnificação ou o tecnicismo atuante apresenta-se por vários meios, por exemplo, o direito de personalidade, de privacidade, de valores humanos, honra, a pessoalidade da pessoa como significação singular, que na pós-bondade a exclui dessa construção privada e social, a tornando objeto, peça de um seriado fascicular de direitos como objeto de legalidade em um processo.
Não havendo como provar a invasão de privacidade, a tortura sonora que um indivíduo recebe, bem como a construção de uma casa, a morada de outro, a invasão de terreno, o gesto, palavra, modos, demoras, conceitos interpretados, os arranjos das maledicências e calúnias que o vitimizado não responde, as desfeitas e indiferenças são os meios em que a pós-bondade com ênfase se manifesta.
Este tipo de fragmentação faz significar que as relações sociais se fazem objetais, coisificadas, uma reificação de legalismo embutido na individualidade, relações humanas formalistas condicionadas ao capital. E isso leva à reflexão de que as paixões estão subsumidas às falhas de terceiros com o concorrente interesse, apropriação indébita, porém protegida pelo formalismo, ganhos no sentido de uso do outro, aproveitamentos.
Há em tudo um alheamento dos sujeitos, muito claro nas comunicações em rede, o outro é a coisa, a máquina, aquele que deve ser reivindicado a se mover, que pode ser ameaçado é assediado à responder, e de outro jeito: comparado, medido, persuadido, transposto, colocado em um lugar de alvo, e por fim amarrado, desfigurado, deposto da condição de sujeito, submetido. Isso tudo não esconde uma moralidade, licenciosidade proveniente de um novo fascismo. Para não fugir às fragmentações pós modernistas (antecipadamente derrotadas), temos agora o tecnicofascismo, e tecnofascismo; virtualismo que impera sobre a carne viva, orgânica.
É um novo e reproducente sistema de Círculo de Giz Caucasiano, a “boa” traição na A Revolução dos Bichos, um descaso subsidiado a um marketing de invisibilidade moral, ético-moral de existência do sujeito crítico a um criticismo de felpas, de micro estágios, de componentes.
São esses fractais que na dimensão macro inviabilizam ao mesmo tempo quem fala e o outro como sujeito inexistente.
O mundo humano sem memória afetiva, lembrando Stanislavski e Vygotsky que através desse construiu o conceito de Perezhivanie, faz pensar no pensamento feito das engrenagens algorítmicas, o que, sinceramente, descarta o humano. E, por fim, não há gesto humano, nenhum possível terceiro sinal, pensamento que não tenha emoção.
Para quem me conheceu nos tempos do Teatro, devem lembrar que eu me nomeava, uma crítica à falta de “provisaçāo” em relação ao definitivamente improvisado, dizia: sou “pós-antigo”, e ainda, o além de tudo, de um ponto convalidado, como parte de um conceito, estagna-se no disperso fragmentado.
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