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Cidade tartaruga

 



Lembrei dos artefatos do passado que desejavam separar, lembre da tartaruga que em tudo flutua e submerge, levanta-se no mundo terreno e vive no aquático, voa sem voar, traz a paz ao unir, e ao mostrar em sua carapaça um mundo circular, organizado, definido que se mantém no seu longo seguir da vida. A cidade lembra o vôo de uma pomba que voa na água transparente, o reflexo da divina presença, e tem um jeito de fazer nascer o mundo, um tempo longo. Lembro que a tartaruga sempre foi dita como a casa do pecado, isso porque vem de origem africana meridional, conhecida como  Levante nos estudos técnicos, geográficos da academia, e isso se refere ao Judaísmo, e aos estudos da Kabbalah considerado herético por muito tempo por outras religiões, mais propriamente pelo cristianismo. Contudo, as lendas que surgem e recaem sobre a tartaruga possui dimensões muito sensíveis, desde a cosmologia indiana que acreditava que o planeta seria sustentado por uma imensa tartaruga, teria a forma de sua carapaça, e dividida em linhas que demarcabam as regiões, e que também se referia a imensidade de fortunas que ao dividir, ao separar une-se no que perdura, caminha, e nada, como que voasse imerso, e fosse impulsionada pelo inaparente caminho-das-águas, as correntes marítimas. Ainda mais, o tempo como transfigurado na figura da tartaruga, a impermanência, referida ao seu constante movimento, em uma atuação definida a um infinito próspero. A lenda já ouvida sobre a tartaruga está na festa no céu, a dizer que tivesse caído de longas auturas e dividido o seu casco em pedaços, em formas desenhadas, e de outras histórias que diz que foi nela que Deuss demarcou o plano existencial das pessoas em um mundo com linhas evidentes, porém claras, de travessias, assim os planos que conformam as regiões, os países, e que por fim demarca a cidade, um projeto divino retomado como a quintassência da integração complexa do homem com outros homens, eles com a natureza.

A simbologia da tartaruga também nos remete a esse esquema projetivo em que os caminhos da comunidade sempre está em movimento, independentemente se as diferenças se apresentem, o que importa é um bem-estar que nas travessias de um lugar a outro possamos todos nos encontrar, todos compreender que estamos sobre o mesmo terreno, levados para um belo desconhecido, suave, duradouro, integrados por essa mobilidade ascendente.
Se pensarmos, a partir disso, entenderemos que as cidades foram feitas para que as pessoas se encontrem, um lugar em que as vizinhanças realizam suas travessias, caminhando pelo conhecido e desconhecido das áreas demarcadas, e isso significa uma proteção que as divisões simbolizam, mostrando bem que a singularidade se abriga, e no entanto se apresenta, e é concebida e recebida por uma comunidade que atua em conjunto, e que de muitas formas possibilita as relações humanas, sejam até mesmo as mais críticas, todos os esforços da existência da cidade, lugar da comunidade, são os traços da felicidade desejada, equilibrada no voo aquático, na fluidez da continuidade.
Acho que os projetos de cidade necessitam acompanhar essa lentidão pesada e constante, e, por ser também rápida como na fábula de Zenão de Eléia, o primeiro passo que o eterno possibilita chega ao princípio da possibilidade, o que perdura no universo das relações humanas. Por isso que é necessário o fundamento da cidade equilibrada, atuante sem perder-se nos jogos, nos interesses que destituem os limites do sagrado, este sagrado de humanidade sensível, de ao mesmo tempo ser pensamento construído, racional e emotivo, como ensina Vygotsky, o pensamento é feito de razão e emoção. O caminho da tartaruga.
Vejo outra vez o tema ressurgir, mas descanso de seguir, de dizer mais, hoje esfriou muito e quente de continuar necessita de travessias, correr ruas, e mais nem sei como sair de casa hoje.



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